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Brasil e a incerteza da greve dos caminhoneiros


O Brasil começou fevereiro com a possibilidade de uma paralisação dos caminhoneiros. Em áudios que circulam nas redes sociais, o ministro Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) afirma que não vai negociar enquanto houver paralisação e que as propostas do governo “já estão na mesa”.


Os caminhoneiros reivindicam o fim da política de paridade de preços com o mercado internacional praticada pela Petrobras. Criticam os aumentos de 5,05% e 4,98% nos preços da gasolina e do diesel, respectivamente.


A categoria também reclama do descumprimento da tabela de frete. Nos áudios, Freitas diz que nada pode fazer. “A fiscalização não é efetiva e não vai ser nunca.”


O ministro conversa com um homem que se identifica como representante da associação de caminhoneiros de Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul.


“Praticar um frete mais baixo, como você vai impedir isso? Assim, o diesel subiu, você tinha que subir seu frete. Por que você não consegue subir seu frete? Porque o seu vizinho do lado faz um frete mais baixo. E se ele faz e consegue transportar, o mercado entende que aquele é o preço”, declara Freitas.


“Agora, o que o governo tem a ver com isso? Se isso fosse um problema de governo… isso é um problema de contrato, de mercado.”


Freitas é o responsável no governo para articular as políticas públicas com a categoria. Ele vem reunindo-se com diversas lideranças por meio do Fórum do Transporte Rodoviário de Cargas.


Em nota, o Ministério da Infraestrutura confirma que Freitas conversou com representantes da Associação dos Caminhoneiros e Condutores de Capão da Canoa.


“Durante a conversa, [o ministro] reafirmou o seu posicionamento em referência às ações setoriais adotadas pela pasta; a total abertura para o diálogo com todas as entidades que demonstram interesse em fazer parte da formulação da política pública; o posicionamento de não negociar com qualquer indicativo de paralisação ou locaute; e sua opinião, de amplo conhecimento de todo o setor, sobre temas de interesse, como a tabela de frete e a necessidade de estimular a economia para ampliar o mercado do transporte rodoviário de cargas”, afirma o ministério.


“O que você acha que pode sair dessa paralisação?”, questiona o ministro em um dos áudios. O representante da categoria diz que quer alguma proposta do governo. “As nossas propostas já estão na mesa”, responde Freitas.


Quando o representante afirma que as medidas do governo não estão sendo cumpridas, o ministro diz: “Paciência, é o que nós temos”.


Freitas critica a paralisação.


“Achar que tem de fazer uma paralisação para conversar, esquece. Na verdade, a paralisação fecha portas. Enquanto tiver com paralisação, eu não converso com ninguém”, declara.


De acordo com ele, o governo está fazendo o que pode ser feito, como, por exemplo, baixar o valor dos pedágio. “Agora, não adianta cobrar do governo aquilo que não está nas mãos do governo. É a situação não está difícil só para caminhoneiro, está difícil para todo mundo”, diz.

O representante afirma que a situação está insustentável. “Se vocês pararem, vai ficar pior”, diz Freitas.


O ministro fala que “o Brasil encolheu” e “passa por crise sem precedentes”. Quando o representante da associação responde que muitos caminhoneiros votaram no presidente Jair Bolsonaro na esperança de um Brasil melhor, Freitas diz:


“O presidente está tomando porrada 24 horas por dia, os governadores e prefeitos fecharam todo o Brasil (…) O presidente faz o que pode, mas o presidente está extenuado.”


Bolsonaro pediu no sábado (30.jan) para a categoria não cruzar os braços.


“Sabemos dos problemas deles. Se tivesse condições, zeraria PIS/Cofins para o óleo diesel, que está em R$ 0,33, mas vamos tentar zerar pelo menos, mas não é fácil”, afirmou o presidente a jornalistas em Brasília.


Bolsonaro argumenta que “foi em cima da Petrobras” para entender o porquê de o combustível ser caro. Ele ouviu do presidente da estatal, Roberto Castello Branco, que a cotação acompanha o valor internacional e que o suprimento interno é o mais barato dos Brics, grupo de países que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.


Adesão


O ministro da Infraestrutura acredita que a paralisação terá pouca adesão.

“Não devemos ter greve. A mobilização é baixa. Sabemos que a situação é super difícil para eles. Mas, a maioria tem uma compreensão incrível do momento pelo qual passamos e não vai aderir. Podemos ter alguns pontos isolados de protestos, que devem se desmobilizar rapidamente. Além disso, vamos seguir em frente na nossa agenda de trabalho”, declara ao Poder360.


A categoria está dividida. O presidente da ANTB (Associação Nacional do Transporte Autônomo do Brasil), José Roberto Stringasc, diz que o ato marcado para 2ª feira será maior que a greve de 2018. Já a CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos) descartou uma nova paralisação. Outras associações, como a Anatc (de transportes de cargas) e a Sertrim (do triângulo mineiro), também.


Algumas lideranças que atuaram na greve de 2018 avaliam que não é hora de parar as atividades em um momento que o país passa por uma das piores crises da história. Em grupos fechados nas redes sociais, motoristas divergem sobre o tema, o que não ocorreu em 2018.


Walace Landim, o Chorão, da Abrava (Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores), divulgou carta dizendo que que não vai participar do ato.


O caminhoneiro Aldacir Cadore, líder do entorno do Distrito Federal, fala que os organizadores do ato desta semana não têm representatividade entre os autônomos. Na avaliação dele, o protesto de 1ª de fevereiro terá “meia-dúzias de gatos pingados”.


Porta-voz da categoria no Espírito Santo, Bira Nobre diz que há uma preocupação com movimentos que querem inflamar e colocar fogo nas estradas. “Isso não é caminhoneiro. Caminhoneiro faz uma paralisação inteligente. Aqui não vamos permitir que ninguém bloqueie a estrada. Precisamos garantir um sossego para a sociedade”


O motorista autônomo Marcelo Silva, de Pernambuco, conhecido como “capitão gancho”, critica os governadores estaduais pelo isolamento social. Sobre o frete barato, disse que é culpa dos motoristas que aceitam um serviço mais barato.


Junior Almeida, liderança do movimento em 2018 e presidente do Sindicam, afirma que o governo dialoga com os representantes da categoria e busca fazer uma mudança de cultura no setor.


Impulsionado pela pandemia, a economia brasileira teve uma retração na faixa de 4,3% a 4,5% em 2020. O 1º trimestre deste ano não deve trazer bons resultados. Analistas consultados pelo Banco Central esperam retração econômica nos primeiros 3 meses do ano. Para Junior Almeida, não é hora de cruzar os braços. “Olha o momento que nós estamos!”.


O SETTRIM


Em nota, o Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas do Triângulo Mineiro informou que:

“Frente ao anúncio nas mídias sociais de uma paralisação (greve) do transporte de cargas em todo o país nos próximos dias, o SETTRIM – Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas do Triângulo Mineiro entende que este não é, de maneira nenhuma, o momento para se promover um movimento desse modelo. Este é um pensamento alinhado com a Confederação Nacional dos Transportes e demais federações estaduais e associações empresariais que representam a direção do transporte de cargas em todo o Brasil. O país, como é do conhecimento geral, atravessa um momento muito delicado provocado pela pandemia e por uma economia com certa instabilidade, em função, também, da pandemia. As questões políticas internas que envolvem os motoristas autônomos têm seu foro próprio que é a mesa de negociações, o meio civilizado para se chegar a bom termo sem sacrificar a sociedade que já pena com tantos problemas de saúde pública, desemprego e economia. Ratificamos nossa contrariedade em relação à essa propalada paralisação de caminhoneiros, cujo alto preço será pago pela população brasileira, ressaltando nosso alinhamento com toda a classe empresarial do setor”.


Fonte: Portal Poder 360